quarta-feira, 14 de abril de 2010

NOITE ESCURA: Definição de Tragédia (I)


O mais importante de tudo isto é a ordenação das acções, pois a tragédia é uma imitação, não dos homens, mas da acção, da vida e da infelicidade... e a infelicidade está contida na acção. O fim da tragédia é a acção, não a qualidade. Segundo o carácter, são as pessoas dotadas de qualidades; segundo as acções, são felizes ou o contrário.

ARISTÓTELES, Poética

A PROPÓSITO DA EXIBIÇÃO DO FILME DE JOÃO CANIJO, NOITE ESCURA, NO DIA 26 DE ABRIL ÀS 21 HORAS.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Antecipação: "John Carpenter's Ghosts of Mars" de John Carpenter (I)


Não, isto não é uma manifestação de professores para alterar o modelo de avaliação. Também não há aqui mão da CGTP ou, muito menos, da UGT. O PCP, que se saiba, também não está representando, apesar da prática do soco e da estalada não estar fora da agenda. É o Maio de 68 para gente da pesada, sem os betinhos da faculdade e filosofias de trazer por casa. À cabeça, Big Daddy Mars e atrás uma turba descontrolada de indivíduos possuídos pelo Demo.

Não, temos que ser sérios. Ok, novo take: o filme que escolhi para esta distinta caldeirada cinematográfica foi "John Carpenter's Ghosts of Mars" que, caso ainda se estejam a interrogar, é realizado por um dos maiores no ramo. Na análise que me proponho fazer tentarei dar corpo a três ideias que considero fundamentais: a primeira é que "Ghosts of Mars" é um western; a segunda é que "Ghosts of Mars" é um filme político e a terceira é que este é um dos filmes da década que mais desafiam o vector espaço-tempo.

A primeira hipótese lança, a meu ver, a interrogação sobre o eterno equívoco (ou promiscuidade mesmo) entre o clássico e o moderno no cinema: será isto Hawks no século XXI ou o século XXI já está em Hawks?

A segunda hipótese, inspirada num texto de Tom Whalen "This is about one thing - Dominion - John Carpenter's Ghosts of Mars", publicado na Film and Literature Quarterly (2002), na folha da cinemateca assinada por Manuel Cintra Ferreira e sobretudo na magnífica entrevista que Carpenter deu aos Cahiers du Cinéma em 2001 (publicarei os meus trechos favoritos em breve), traduz uma tentativa antiga minha de afirmar a singularidade deste filme na obra recente de Carpenter e a sua estreita ligação com a actualidade política norte-americana; logo, internacional; logo, universal, leia-se, interplanetária. Ou seja, Marte está a um passo da Terra, pelo menos, para um dos maiores cineastas vivos.

A terceira hipótese, ligada às anteriores, enforma outras (im)possibilidades: em que medida é futuro o(s) passado(s) que se conta(m) em "Ghosts of Mars" ou não será esta uma das mais arriscadas manobras temporais na obra do realizador; logo, um dos seus filmes mais "modernos"?

Dia 29, às 21h00, no auditório 1, tentarei dar resposta a todas estas questões ou levantá-las de outro modo.

Antecipação: Jia Zhang-ke e Plataforma


Jia Zhang-ke, o realizador de Plataforma (站台), é um dos nomes-chave da chamada Sexta Geração do cinema chinês. Quanto a mim, é provavelmente o mais relevante desses realizadores e um dos, senão mesmo “o”, realizador dos anos 2000. As suas obras concretizam-se num espaço híbrido entre ficção e documentário (talvez em nenhuma esse hibridismo seja tão perfeito como no seu recente 24 City) e mostram-nos faces invisíveis de um país hoje permanentemente nos headlines. A China de Jia é a China que está para lá das extravagâncias olímpicas. E contudo, os seus filmes constituem alguns dos mais preciosos retratos (documentos?) desta China em mutação. As suas obras fixam os efeitos de uma mudança que o próprio apelidou de canibalística (“It's almost like China is eating its tail. It's going forward, but what it gets in return is disproportionate to what it loses”). A sua câmara fixa esses momentos, essa realidade que encompassa passado e futuro, as nostalgias e as dúvidas daqueles que, como os protagonistas de Plataforma, parecem ficar a ver o comboio do “progresso” passar sem saber como embarcar nele.

Deixo aqui uma entrevista ao autor em duas partes, na qual ele se refere a Plataforma. Para abrir o apetite para o (re)visionamento do filme dia 23:


segunda-feira, 5 de abril de 2010

Já em cartaz: Década dos Zeros - lista B

Da autoria da Sara Campino, eis o cartaz do evento:
Clicar na imagem para ampliar

Entre os dias 21 e 30 de Abril, a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas vai receber o ciclo da década: 15 filmes dos últimos anos zero que os 15 zeros à esquerda aqui do burgo consideram que merecem ser resgatados do esquecimento antes que seja tarde demais - e que se rasgue a lista A! A entrada é gratuita e todos, até os que acham que o "cinema morreu" lá para meados dos anos 70, serão bem-vindos.

Programação (em Abril):

Auditório 2 - Torre B

Dia 21 - Gerry (2002) e Mary (2005)

Dia 22 - The Inner Life of Martin Frost (2007) e La frontière de l'aube (2008)

Dia 23 - Zhantai/Plataforma (2000) e Branca de Neve (2000)

Auditório 1 - Torre B

Dia 26 - Bug (2006) e Noite Escura (2004)

Dia 27 - Marie Antoinette (2006) e Tetro (2009)

Dia 28 - The Business of Fancydancing (2002) e Bamako (2006)

Dia 29 - Lady in the Water (2006) e Ghosts of Mars (2001)

Dia 30 - Zidane (2006) e CONFERÊNCIA

O primeiro filme passa sempre às 18h e o segundo às 21h, mas no dia 30 o filme "Zidane" começa às 17h, terminando às 18h30. Depois do "coffee break", às 18h40, começa a conferência, que terá a duração de uma hora e vinte minutos. É melhor virem, não vá o diabo tecê-las...

O Zero do Telescópio segundo Hergé

O Zero do Telescópio

Já tinha saudades de escrever num blog.
David Pinho Barros, 24 anos, aluno n.º 24891 da FCSH-UNL e cidadão n.º 12918087 da República Portuguesa.
Um filme marcante dos 00s do século passado: As Seen Through a Telescope de George Albert Smith (1900), uma brilhante comédia sobre um peeping tom, em que se pode encontrar aquele que é o primeiro (penso eu) POV close-up shot da História do Cinema.







domingo, 4 de abril de 2010

...um zero “alterNativo”






Chamo-me Joana Rodrigues, tenho 25 anos e sou do Porto. Estou neste momento a terminar o mestrado em Comunicação & Artes na FCSH, com uma dissertação sobre o cinema nativo americano contemporâneo. Após uma intensa licenciatura em Cinema (realização e montagem) na ESTC, tive algumas experiências profissionais em diferentes áreas (guarda-roupa, produção de festivais, assistência de realização, produção, montagem e o que for necessário, que o que me move é o “amor à camisola”), tanto em Portugal como no estrangeiro (EUA).

A propósito da escolha de um filme da primeira década do século passado e de acordo com os meus interesses actuais, proponho que recordemos James Young Deer, um dos primeiros nativo-americanos a obter reconhecimento enquanto realizador, em toda a História do cinema. Assim, a curta-metragem White Fawn’s Devotion (1910) é a minha sugestão. O que se destaca deste pequeno filme é, sobretudo, a densidade da história e a abordagem, pouco comum à época, do tema do casamento entre colonizadores e mulheres nativas. Ainda mais interessante será fazer o paralelismo entre esta curta-metragem e a visão de Sherman Alexie, autor do filme The Business of Fancydancing (que passará no ciclo) no sentido de se atentar na evolução da imagem do “índio” e na sua complexificação.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

1 Zero à Esquerda + 1 Filme = Segundo de Chomón

Nasci com o sol na constelação do Touro naquela terra que antigamente era conhecida como o “bel paese”. Já completei 29 revoluções orbitais, mas somente há cinco é que me encontro em Portugal. Estou a frequentar o doutoramento em Cinema na Universidade Nova de Lisboa tentando de conciliar a teoria com a prática. Em 2009 realizei um pequeno documentário (Canto da Terra d'Água) e espero continuar no árduo ofício do cinema.

O autor da primeira década do século XX que proponho é Segundo de Chomón: artesão e conhecedor dos segredos da luz e da película, talento poliédrico que impulsionou o cinematógrafo para o Olimpo da arte. Realizador, director da fotografia, mestre em efeitos especiais, Segundo de Chomón foi um dos principais pioneiro do género fantástico (mas o que era então o cinema senão o mundo do maravilhoso?), do cinema de ficção cientifica, histórico e cómico inventando e desenvolvendo as mais diversas técnicas cinematográficas. Entre os seus numerosíssimos filmes escolhi Satan s'amuse (1907) pela riqueza dos truques que põe em cena e sobretudo pela experimentação e o domínio que manifesta ao nível cromático.

Francesco Giarrusso

Satan s'amuse (Segundo de Chomón, 1907)

quarta-feira, 31 de março de 2010

Bem, já que falei disto...



Isto e muito mais, aqui.

Alguém pediu mais um 'zero à esquerda'?



Sim, sem explicação plausível, agora o texto já não está sublinhado e azul. Não, não percebo mesmo como, nem porquê - mas estou a considerar seriamente em tornar-me ciber-agnóstico.
O filme da 'primeira década dos zeros com cinema dentro' que quero hoje homenagear não é o da icónica imagem que escolhi, e só não o é porque 'Les Vampires' é de 1915; como tenro ciber-agnóstico que sou, não consegui encontrar nenhuma imagem para 'La Légende de la Fileuse', um dos cinquenta mil filmes que Louis Feuillade realizou em 1908, mas o mais belo dos (poucos) que conheço. Não partilha da mesma elasticidade técnica que fez do autor um claro precursor para o que Lang, Hitchcock, Torneur, Welles, e consequentes 'briandepalmas' viriam a querer fazer, aproximando-se mais do 'teatro filmado' com câmara no ponto de vista da audiência que em 1908 já havia sido solucionado e ultrapassado, inclusive pelo próprio. No entanto não falta criatividade nesta transposição para a tela do mito clássico grego de Aracne, uma mortal que através da sua virtuosidade despertou a furiosa inveja da deusa Atena; o resultado último da ira da deusa foi a transformação de Aracne em aranha - ilustrando o refinado humor negro que os deuses gregos possuíam, já que a jovem era uma reputada bordadeira... A sequência final do filme, que convoca uma descida às profundezas do mar, provavelmente instituindo o primeiro ponto de vista submarino, faria Mélies curvar-se por respeito perante Feuillade, e oferecer-lhe prazeres orais por três meses. Já agora, pode ser impossível de o provar, mas eu seria capaz de jurar que o clímax do 'The Life Aquatic with Steve Zissou' invoca precisamente essa sequência...

Bom, acrescento apenas que esta escolha é sentimental. Se quiser ser mais rigoroso e objectivo, ou mais rigorosamente objectivo, talvez declarasse 'A Corner in Wheat', o filme de 1909 do timoneiro D.W. Griffith, como o grande filme da 'primeira década dos zeros com cinema dentro'. É um filme que institui a montagem dialética que viria a ser a pedra-de-toque da Revolução Russa (a do cinema, claro). Conta uma história de opressão dos pobres camponeses exercida pelo rico latifundiário que quase parece uma rábula orwelliana - e se fosse realizado 30 ou 40 anos mais tarde, o Elia Kazan iria bufar mais que uma gaita de foles...
Mas mais que tudo isto, é a própria beleza inerente a cada 'quadro' que me comove e arrasa. O cuidado na composição de cada plano, o meticuloso convite à leitura objectiva sobreposta à lírica, o realismo duro que ombreia com a inevitável poesia que contagia todos os planos rurais, como na pintura de Courbet... Não foram só os russos que desta água beberam - de Ford a Van Sant, de Mizoguchi a Tárr: todos exibem no seu ADN provas que o seu olhar passou por aqui.



segunda-feira, 29 de março de 2010

e mais um zero: Helena Ferreira


Sou estudante, alumna da FCSH agora na diáspora para aprofundar os estudos sobre “cousas da China” em terras de Sua Majestade. Por Portugal vou assinando algures pela “rede” alguns textos sobre (a dita) sétima arte – mais fruto de cinefilia que de academia. É nessa condição de fervorosa cinéfila que me debruçarei aqui sobre uma obra de um dos grandes da década – e que por acaso vem daquele país grande na Ásia.
Quanto ao início do século XX, vou subverter já a regra da primeira década e escolher um filme dos anos 1910s, o belíssimo Broken Blossoms (1919) de D. W. Griffith (que, afinal, começou a carreira nos anos 00 do século passado), uma das primeiras representações de uma história de amor inter-racial do cinema (mesmo tendo em conta que o “Yellow Man” foi interpretado pelo americano Richard Barthelmess) e tão mais interessante quanto saiu do mesmo Griffith que nos dera o tecnicamente magnífico mas tematicamente racista Birth of Nation.

domingo, 28 de março de 2010

+ um zero: Marta Fernandes


Ora na continuação da sessão de AA, tenho 32 anos, uma licenciatura em Ciências da Comunicação, um par de pós-graduações e agora um mestrado para terminar. Trabalho em distribuição/produção, na Midas Filmes.
Da primeira década do século XX, o Luís escolheu um western e eu escolho o primeiro filme de ficção científica :) Le Voyage dans la Lune. http://www.youtube.com/watch?v=7Kpnbl3tn58&feature=related#watch-main-area

sábado, 27 de março de 2010

quEm vAi À confErÊnciA

"eXistenZ" de David Cronenberg

Para a nossa conferência do dia 30 de Abril, das 18:40 às 20:00 no auditório 1, já temos painel confirmado: os críticos de cinema João Lopes e Luís Miguel Oliveira; o realizador e Professor João Mário Grilo e o escritor e Professor Fernando Cabral Martins. A moderação vai estar a cargo da Marta Fernandes.

Confirmamos mais isto: esta sessão de conversa, em torno de tópicos que haveremos de aflorar nos próximos tempos aqui neste espaço, começará depois da exibição de "Zidane" (exibição, perceberam? hihi, que graça qu'a gente tem). Estamos a tratar de arranjar um lanchezito (ou "coffee break" como se diz em bom português) para o intervalo. A ver vamos.

domingo, 21 de março de 2010

Zero à esquerda: Luís Mendonça


Tenho 24 anos, sou licenciado em comunicação social e candidato ao desemprego no mestrado de Cinema e Televisão na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas. Penso que este ciclo e conferência poderão produzir uma conversa descontraída e interessante no espaço, por vezes, excessivamente "academizado" da faculdade.

Da primeira década do século passado, lembro-me de ter visto muito pouco, mas há um filme que se destaca: "The Great Train Robbery" (1903). Um western já muito completo, com um assalto a um comboio, perseguição aos bandidos e, se bem me recordo, algum "fist fight". O mais memorável é o seminal plano frontal do xerife a disparar contra o espectador - uma imagem-choque que haveria de ser retomada por diversos realizadores, entre eles e mais brilhantemente, por Tarantino ("Pulp Fiction") e Scorsese ("Goodfellas").

Apresentações e rememorações

"The Asphalt Jungle" de John Huston

Tenham isto como um pretexto para fazermos as devidas apresentações. Seguindo o modelo de identificação dos presos políticos nas portas de entrada para a prisão de Caxias, sugeria que cada zero à esquerda se apresente (a que vem, por que vem, o que faz, no fundo, quem é) e, se tiver memória para isso ou vontade, recorde um filme que tenha visto datado da primeira década do século XX. Reconheço a dificuldade deste último desafio (facultativo), mas haverá momento mais oportuno que este para se prestar homenagem aos outros anos zero do cinema?

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